Notícias

Recuperação de ativos no Brasil: o que mudou e o que ainda desafia o mercado em 2026?

Diante das mudanças que reconfiguraram o mercado de crédito corporativo brasileiro nos últimos três anos, Felipe Rassi, especialista em créditos estressados, examina um fenômeno que ganhou escala e sofisticação simultaneamente: a recuperação de ativos deixou de ser uma etapa residual do ciclo de crédito e passou a ocupar posição central nas estratégias de gestoras, bancos e fundos de investimento. Em 2026, com um estoque de créditos deteriorados que supera R$ 380 bilhões no sistema financeiro nacional, a eficiência nesse processo tornou-se uma variável de resultado, não apenas de compliance. Neste artigo, vamos explorar os principais vetores que definem o desempenho neste segmento hoje.

Por que a qualidade da garantia nunca foi tão determinante?

A execução de garantias reais sempre foi um elemento central nos processos de recuperação de ativos, mas em 2026 sua relevância atingiu um novo patamar. Com o aumento do volume de operações em disputa simultânea e a maior sofisticação dos devedores na gestão de seus ativos durante processos de recuperação judicial, a qualidade da garantia constituída no momento da concessão do crédito passou a ser o principal fator de diferenciação entre operações com alta taxa de recuperação e aquelas que resultam em perdas expressivas.

Na avaliação de Felipe Rassi, o mercado brasileiro ainda convive com uma herança problemática de operações originadas entre 2019 e 2022, período em que a abundância de liquidez reduziu artificialmente a percepção de risco e flexibilizou os critérios de garantia exigidos. Alienações fiduciárias sobre ativos superavaliados, penhor de recebíveis sem verificação de concentração de clientes e garantias prestadas por empresas do mesmo grupo econômico sem patrimônio próprio relevante são padrões recorrentes nas carteiras que hoje apresentam os maiores desafios de recuperação.

O impacto das reformas processuais na velocidade de recuperação

Um dos avanços mais concretos observados no mercado brasileiro de recuperação de ativos nos últimos anos foi a melhora gradual na velocidade de execução de garantias em determinadas jurisdições. A criação de varas empresariais especializadas em recuperação judicial em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais reduziu o tempo médio de tramitação de processos complexos e aumentou a previsibilidade das decisões judiciais para os credores.

Felipe Rassi
Felipe Rassi

Conforme expõe Felipe Rassi, essa evolução, embora real, ainda é geograficamente desigual. Fora dos grandes centros, a execução de garantias continua enfrentando morosidade significativa, o que impacta diretamente a precificação de carteiras com distribuição nacional de devedores. Gestoras que operam com ativos em regiões de menor infraestrutura judiciária precisam incorporar esse fator de risco em seus modelos de valoração, sob pena de construir projeções de retorno que não se sustentam quando confrontadas com a realidade operacional do processo de recuperação.

Tecnologia e dados como vetores de eficiência operacional

A transformação mais silenciosa e mais profunda que ocorreu no mercado de recuperação de ativos nos últimos três anos foi a incorporação de tecnologia de análise de dados em todas as etapas do processo. Da triagem inicial de carteiras à priorização de devedores para cobrança ativa, passando pela modelagem de probabilidade de recuperação por segmento e pela automação de fluxos de negociação, a tecnologia deixou de ser um diferencial para se tornar um requisito básico de competitividade.

Como pondera Felipe Rassi, o uso inteligente de dados não substitui o julgamento técnico humano nas decisões mais complexas de recuperação, mas elimina o desperdício de recursos em créditos com baixíssima probabilidade de retorno e concentra esforço onde o potencial de resultado é real. Gestoras que ainda operam com processos majoritariamente manuais de triagem e priorização de carteiras estão perdendo eficiência em escala, o que se reflete diretamente em suas taxas de recuperação e, consequentemente, em seus resultados.

O perfil do devedor corporativo e as estratégias de abordagem em 2026

Compreender o perfil do devedor corporativo que compõe as carteiras de NPL em 2026 é fundamental para calibrar as estratégias de recuperação. O ciclo atual de inadimplência não produziu um perfil homogêneo de devedor. Coexistem, nas carteiras em circulação no mercado, empresas com dificuldades estruturais sem perspectiva real de recuperação e empresas tecnicamente viáveis que enfrentam um problema pontual de liquidez agravado pelo ambiente de juros elevados.

Segundo Felipe Rassi, distinguir esses dois perfis com precisão é o que determina se a estratégia de recuperação será a negociação de um acordo extrajudicial com desconto, a reestruturação operacional do devedor com conversão parcial da dívida ou a execução direta das garantias. Aplicar a mesma abordagem a devedores com perfis radicalmente distintos é um dos erros mais custosos que uma operação de recuperação de ativos pode cometer, e também um dos mais comuns entre equipes com menor experiência nesse segmento específico do mercado financeiro.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo